terça-feira, 18 de maio de 2010

" Lá vem ela"!

Quando ela chegava lá em casa (a casa dos meus pais), minha mãe já ficava aflita, pois ela tinha o "dom" de deixar as pessoas perturbadas com o seu jeito de pedir. Carente de tudo, ela pedia roupas, calçados, remedios, alimentos, dinheiro, tudo de uma só vez . Recebia uma coisa e já arranjava outra para pedir.
Meus pais eram profundamente sensíveis às necessidades dos outros e do pouco que tinham davam sempre um jeito de repartir com quem precisava, mas tambem eram idosos, cansados e das dezenas de pessoas a quem eles ajudavam ela era realmente a mais "pesada".
Com o passar do tempo nos acostumamos e quando um de nós, os que já tinham sua propria casa, vinha para uma visitinha aos pais,e tocava de sorte encontrá-la ali, aí era a "festa", pois ela se voltava para o visitante e recomeçava a sua cantilena.
Uma vez na hora que ela ia chegando um dos meus irmãos estava saindo para o trabalho e ela começou: me dá um dinheirinho, me dá um vestido, me dá, me dá, me dá... e ele apressado, dizendo que não tinha nada pra ela e como estivesse com os olhos irritados tirou do bolso um vidro de colírio para usar e enquano usava ela chegou e disse: "me dá"... ele nem a deixou terminar e disse: menina, isso é colírio!! Ela não se descompôs. Puxou a pálpebra inferior, arregalou o olho e disse: "pinga uma gotinha aqui"!
Eu algumas vezes lembrava dela e quando ia à casa dos meus pais levava roupas, calçados, enfim, alguma coisa já usada mas em bom estado de conservação e que servisse para ela. Certa vez dei uma sacola cheia de roupas e ela ao invés de se alegrar com o que estava recebendo falou: "me dá um sapato"! Eu já era acostumada e respondi: ok, eu dou. "E uma bolsa, tu me dás"? E eu: dou, sim, e lá vem ela com esta jóia: "mas com um dinheirinho dentro"!
Assim era ela. O tempo passou, meus pais se foram, nossa casa hoje é habitada por pessoas estranhas,foi uma fase que passou. Vez por outra a vejo em qualquer lugar do centro da cidade e peço a Deus que ela encontre sempre pessoas que mesmo reconhecendo o seu jeitão insistente de pedir, saibam compreendê-la e ajudá-la na sua indigência.

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